Essa fotografia abre a expografia da mostra de 2012 em que utilizei as grandes dimensões de vidro que encontramos na cidade para representar o momento de condensação da imagem. Não há dupla exposição, são instantes fotográficos cotidianos ao qual nós estamos imersos diariamente e ao qual somos educados a ignorar como modo de organização das nossas representações.

Abaixo copiei e colei o texto de apresentação da exposição escrito por Tania Rivera (psicanalista e ensaista da Universidade Federal Fluminense).

O Lugar da Transparência
Tania Rivera*

Imagem sobre imagem. Na fotografia de Marcelo Leães as imagens
urbanas da vida cotidiana duplicam-se, abrindo súbitas janelas sobre elas
mesmas que as transformam e remetem para outra coisa que não está lá
(seria isso o inconsciente? O real?).

A fotografia revela então sua verdade: ela não é uma mera projeção da
realidade em um plano bidimensional. Antes, ela desfolha o real e faz ver
sua surpreendente pluralidade. A realidade talvez consista em uma
montagem complexa de infinitas facetas – para a maioria das quais, de
hábito, nos cegamos, na exigência de unificar o mundo. Até que, de
repente, as condensações de Leães abrem nossos olhos para a
apresentação de um breve instante nesse belo e complexo jogo de
sobreposições, nessa escrita em móvel palimpsesto.

Como dizia Walter Benjamin, a fotografia implica um “inconsciente
ótico”. Ali “onde não se pensa”, olha-se. Se a imagem se reflete, é na medida em que, como mostra a etimologia de reflexo, algo nela dobra-se, repetidamente. Não há passagem direta
entre o mundo e a imagem, mas sim uma certa inflexão, uma quebra capaz de desdobrar a própria realidade (como um vidro). No surpreendente espaço que essa dobra constroi dentro de si, nesse transparente intervalo, sou por um momento convidada a alojar-me entre
imagens. “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”, dizia Lacan reformando Descartes. Ou melhor: Olho onde não se pensa, logo ali aconteço, diriam as imagens de Leães.

A condensação é o mais importante mecanismo do trabalho inconsciente,
ao lado do deslocamento, do qual Freud se ocupa bem menos. Ela consiste em sobrepor ou unir diferentes pensamentos em um mesmo elemento do sonho, formando pontos em que sua trama torna-se mais densa e mostra-se impossível de interpretar. São justamente essas zonas opacas que levam Freud a falar em “umbigo do sonho”, ponto em que ele mergulha na obscuridade e convoca o corpo e a ligação ao outro (a metáfora do umbigo é loquaz) a se materializar em imagem.

A condensação talvez seja um momento de estranho encontro de si, nas
imagens do mundo. Com André Breton, podemos afirmar que essas
fotografias nos lembram que “nada do que nos cerca nos é objeto, tudo
nos é sujeito”.

Marcelo Leães - O lugar da transparência

R$ 150,00Preço

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realização:

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